Pode parecer estranho inicar um blog que se propôe a tratar de economia e sociedade com impressões acerca de uma cidade. No entanto, é importante que se enfatize que conhecer outra cidade é, de fato, uma questão de sociedade, além de estar eu, concomitantemente, saciando a curiosidade de grandes amigos meus que deixei no Rio Grande do Sul.
Fiquei cerca de cinco dias no Rio de Janeiro, no bairro do Leblon, junto a ex-colegas de UFRGS, que vêm cursando seus mestrados em Economia na conceituada PUC-Rio. Admito, portanto, devido à região em que fiquei, que pouco conheci do lado "negro" da cidade maravilhosa. O que vi disso ocorreu quando me dirigi à rodoviária da cidade para comprar minha passagem à Juiz de Fora, quando o ônibus em que estava entrou parcialmente num bairro muito pobre - seguro por soldados do exército - além do próprio entorno da rodoviária, muito degradado, como os que conhecem o Rio devem saber.
Logo, tive, de forma geral, uma boa impressão da cidade. O Rio de Janeiro, por exemplo, me pareceu mais democrático que Porto Alegre no que tange à mistura de classes, pois é muito comum, mesmo nos bairros mais ricos, como o em que estava, visualizarmos favelas e pessoas de lá, em sua maioria negros, caminhando entre os prédios residenciais e comerciais para gente de alta renda. No edifício em que me hospedei, por exemplo, havia sala de ginástica, estacionamento, playground para as crianças e piscinas, de onde se via, porém, a favela da Rocinha. Na praia, então, estão todos: ricos e pobres, entre as mais variadas tribos, como gringos e homossexuais, e isso se mostrou a mim um ponto muito positivo da cidade.
Tive a experiência também de visitar o Maracanã, no clássico Botafogo x Fluminense, pela semifinal da Copa Guanabara. A estrutura do Maracanã não tem nada de diferencial, exceto pelo fato do estádio, por sí, já ser um clássico, independentemente do jogo. Outro ponto interessante de lá, e talvez ao contrário do que imaginemos, é a mistura de torcidas que ocorre nas arquibancadas: os ingressos, por exemplo, não têm definição de portão e, apesar de ter ido com torcedores do Fluminense, eles foram comprados na sede do Botafogo - o que não fez a menor diferença. A saída é tumultuada pois se sai do Maracanã através de plataformas, espécie de corredores externos, que oferecem poucas saídas às ruas, o que nos fez perder mais de meia hora nesse processo - como se os portões do Estádio Olímpico ou Beira-Rio fossem uns corredores longos, e aquele tradicional "empurra-empurra" em "passos de formiguinha" perdurasse muito tempo, durante um longo caminho. Nos metrôs - muito bons, pelo menos nos que transitei - as torcidas também vão misturadas, e foi onde presenciei uma das cenas mais bonitas que vi relacionada a futebol: os torcedores de ambos os times, na sua maioria jovens e adolescentes, cantam uns para os outros, uns ao lados dos outros. Nisso, os cariocas têm muito a ensinar a nós, gaúchos.
E visualmente, o Rio de Janeiro é realmente muito bonito, cercado sempre no horizonte, ou entre prédios, por morros e outras belas paisagens, além das praias. Tive a oportunidade de visitar a Lagoa Rodrigo de Fretas, Ipanema, Copacabana, e são todas deveras bonitas, além de encontrarmos às vezes algumas figuras conhecidas - como o Hélio de La Peña, do Casseta & Planeta, com quem tive a oportunidade de "esbarrar".
Alguns outros aspectos, claro, como em todo lugar, pesou negativamente, apesar de parecerem, à primeira vista, de pouca relevância. Um exemplo é o fato dos homens poderem andar nos ônibus, ou em estabelecimentos comerciais, sem camisa, o que é impenssável em Porto Alegre. Os serviços também são um tanto mal prestados em alguns lugares, com muita demora no antendimento, uma certa grosseria dos funcionários, talvez até um certo desleixo em relação à qualidade dos serviços. Me senti como se estivesse numa praia mas com muita pressa, como numa cidade grande. Ou seja, tive a impressão de que o rítmo da cidade nem sempre acompanha o rítmo das vidas das pessoas.
Outro ponto interessante é o fato de lá serem todos "sarados". E não me refiro somente ao rico: mesmo os pobres, nos poucos bairros mais populares que visitei e as pessoas deles que vi na rua, têm corpos bem definidos, homens e mulheres. É certo que a praia, o sol, a conseqüente prática de esportes que isso oferece e estimula, contribui para essa característica, o que faz dos cariocas um povo muito bonito. Por outro lado, tive a impressão de ver um grande culto ao corpo na cidade, com as pessoas dedicando muito de seu tempo a práticas saudáveis, sim, como os esportes, mas a outras nem tanto, como aos banhos de sol exagerados, às muitas lojas de cosméticos etc.
Bem, já estou em Juiz de Fora há alguns dias, e devo tratar dessa simpática e interessante cidade em breve, após organizar um pouco mais minha vida aqui. Tão logo possa, atualizarei esse blog com mais assiduidade, tratando não só da "minha vida", como num diário - pois não é essa minha intenção aqui - mas, enfim, um pouco do Brasil, que tão mal conhecemos, como tenho percebido cada vez mais.
1 comentário:
Tive as mesmas impressões sobre o Rio quando fiquei 3 dias lá em 2006, quando fui chamado pela UFRJ (menos os corpos sarados dos homens, é claro!).
E ainda, achei a cidade muito turística, não senti um "espírito acadêmico" no lugar, independente da qualidade de suas universidades. Provavelmente eu teria estudado muito menos morando no Rio e cursando a UFRJ do que morando na "selva de concreto" BH, em que o estudo é quase que uma "opção de lazer" nos finais de semana.
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