Conforme anunciei aqui, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou ontem a pesquisa com células-tronco embrionárias no Brasil, ao considerá-la constitucional. Foi o fim de uma novela que já se desenrolava havia algum tempo, não somente pelos tribunais, mas por toda a sociedade brasileira, num debate que, embora sobre o qual já tenha havido uma decisão, ainda não chegou ao fim – o que vem ocorrendo não somente aqui, mas em diversos países do mundo.
Grande parte da dimensão que tomou essa questão se deve ao caráter moral que tal decisão tem, ao permitir pesquisas que se utilizarão de gametas fecundadas que, por conseqüência das pesquisas, terão seus desenvolvimentos interrompidos. O debate gira em torno daí: já que as células já estarão fecundadas, a interrupção de seu desenvolvimento não se constituiria numa espécie de homicídio contra um indivíduo que, embora vivo, não pode se defender? Afinal, se pergunta, onde começa a vida?
Esse tipo de questionamento, como o leitor atento já deve estar imaginando, não poderia vir de outro lugar se não de setores religiosos e moralistas. Eu, particularmente, não conheço nenhum que não o seja.
É importante que se frise que os gametas fecundados usados para as pesquisas, embora vivos, nunca se transformariam em seres humanos no futuro, mesmo no caso das pesquisas não serem feitas. Esse tipo de gameta seria fecundado em laboratório exclusivamente para os trabalhos, se constituindo numa célula como tantas outras com que se praticam pesquisas científicas. Se são vivos? Sim, claro, como os protozoários, os vírus ou as amebas. Mas daí dizer que se trata do assassinato de um ser um humano em formação é algo que, na minha opinião leiga, beira ao ridículo. Eu, por exemplo, acho a morte daqueles ratinhos de laboratório muito mais homicida e cruel que a extinção de um gameta fecundado.
O leitor (mais) atento (ainda) deve estar percebendo, então, que a questão não é técnica nem pragmática: é política. O que há são determinados setores sociais que vêem as pesquisas com células-tronco embrionárias como um afronto às suas concepções de vida e crenças que sustentam toda uma estrutura institucional em que se apóiam. As reações à aprovação pelo STF nada mais é do que uma versão contemporânea do que a ciência passou noutras épocas: Lembremos, por exemplo, que Copérnico e Galilei também enfrentaram reação forte de setores conservadores da sociedade (e, como não podia deixar de ser de novo, de religiosos) ao tratarem do heliocentrismo, transferindo da Terra para o Sol o papel de centro do universo. Ora, hoje ninguém mais questiona o fato da Terra girar em torno do Sol, tampouco se pensa que isso é uma afronta ao homem, a deus, à ordem, à ética, à moral ou seja lá a quê. Outros tantos são os casos: as teorias do Big Bang e da evolução das espécies são até hoje questionadas pela Igreja Católica devido a questões morais; e a vacinação obrigatória teve forte reação negativa quando implementada, inclusive no Brasil. Tudo isso, que hoje tem aceitação comum e nos parecem normais e corriqueiras, foram negadas e perseguidas no passado por argumentos baseados unicamente em pressupostos morais/religiosos (que são, na prática, a mesma coisa), como se o certo e o errado fossem determinados por seus santos e orixás, e impedindo o avanço do pensamento e da humanidade como um todo. O mesmo vale às rejeições ao aborto a ao casamento homossexual, que ainda persistem; sem falar do machismo e do racismo que ainda se mantém nas nossas personalidades em pleno século XXI.
Não acho que a ciência está acima do ético. Sei que ela, sem um embasamento humanitário, em nada nos serve – que os cientistas nazistas, por exemplo, embora geniais, fizeram inúmeras barbaridades; e que a energia nuclear pode ser usada tanto para movimentar fábricas quanto para nutrir bombas. Mas o ético não pode ser confundido com a crença, com a bíblia, com os valores e ideologias que sustentam concepções de mundo e de vida. A pesquisa com células-tronco embrionárias pode significar a salvação e a melhora da qualidade de vida de inúmeros seres humanos, e isso, para mim, é ético. Como certa vez disse Marcelo Yuka, músico que ficou paralítico depois de ser baleado num assalto, ele não vai abandonar sua possibilidade de voltar a caminhar só porque religiosos e moralistas acham errado determinadas pesquisas científicas devido às suas concepções.
E ontem, após saber da decisão do STF, eu, um crítico tão ferrenho de diversos aspectos do nosso país, fiquei orgulhoso ao saber que faço parte de uma sociedade que tem se comportado de maneira madura e vanguardista diante de uma questão tão importante para o futuro da humanidade.
6 comentários:
Baita texto, Diego!
Já que não estou com muito tempo para escrever (a não ser o artigo sobre nacionalismo), vou recomendar a leitura do teu post lá no Cão.
Abraços!
Muito bom texto!
Diego, vou ter que discordar profundamente de ti em algumas questões. Até agora, tenho sido a favor (embora considerando que a decisão não é simples) das pesquisas.
No entanto, a forma que tu atacou o pensamento religioso não faz muito sentido quando tu quer falar sobre ética. Ética tem a ver necessariamente com nossas concepções de mundo, sejam elas religiosas ou não. Podemos atribui-las a Deus, a filósofos ou a quem quer que seja.
Tu dizes que "o ético não pode ser confundido com a crença, com a bíblia, com os valores e ideologias que sustentam concepções de mundo e de vida" - o ético trata justamente de valores. E se as pessoas baseiam seus valores na Bíblia ou em Nietzsche, não interessa. Elas têm o direito de defender suas posições. Tu pode perfeitamente discordar das concepções católico-romanas (como eu também discordo muitas vezes), mas nem por isso vou dizer que basear concepções éticas na religião é algo proibido. O motivo é que não faz sentido.
Deixando bem claro: uma coisa é discordância de crenças ou concepções de mundo (sejam elas seculares ou religiosas). O que tu disse ali em cima não foi isso. Tu disse que o ético não pode ser confundido com o religioso. Mas isso é absurdo pra alguém que professa religião. E mais, muitas (ou quase todas) das tuas próprias concepções éticas, uma vez que tu vive na sociedade brasileira, provêm da religião - principalmente da católica.
Ora, se os católicos são contra, eles que sejam. Discorde deles à vontade. O que caracteriza a sociedade democrática é a tolerância, não o sepultamento das idéias ditas conservadoras ou coisa parecida. Bem, os conservadores são moralmente contra a homossexualidade. Eles podem ser, desde que sejam tolerantes. Eu não concordo com várias atitudes, nem por isso acho que as pessoas que as tomam devam ser desprezadas. na verdade, muito pelo contrário.
abraços,
Thomas
Thomas;
Sabia que teu comentário, se viesse, seria nesse sentido. Até estranhei a demora... E mexi no vespeiro de propósito, pois li tanto o teu texto como o do Stein, que me recomendaste.
Tua opinião é legítima e muito bem embasada, como sempre.
Três curtos comentários somente:
"... nem por isso vou dizer que basear concepções éticas na religião é algo proibido."
Nem eu.
"E mais, muitas (ou quase todas) das tuas próprias concepções éticas, uma vez que tu vive na sociedade brasileira, provêm da religião - principalmente da católica."
Concordo plenamente! Sempre disse isso: No Brasil, a religião, particularmente a católica, está tão inserida no nosso dia-a-dia que nem a percebemos. Isso se reflete nos nossos hábitos e, também, nas nossas concepções de certo e errado - o que interfere invariavelmente na forma como conduzimos as coisas no nosso país. É isso, e toda a estrutura de conservadorismo que cria - impedindo mudanças importantes na nossa sociedade - que critico incondicionalmente.
"Ora, se os católicos são contra, eles que sejam. Discorde deles à vontade. O que caracteriza a sociedade democrática é a tolerância, não o sepultamento das idéias ditas conservadoras ou coisa parecida. (...) Eu não concordo com várias atitudes, nem por isso acho que as pessoas que as tomam devam ser desprezadas. na verdade, muito pelo contrário."
Perfeito! A democracia vale para todos - até para mim!
Abraços recíprocos!
po gordinho, excelente texto, concordo plenamente. Voce disse o que eu queria dizer mas nao saberia como.
puxa vida! adorei seu texto e concordo com você.seu texto foi explicativo, crítico e muito inteligente.deixo aqui uma reflexão muito minha: certas religiões impõem certas coisas, as quais talvez não tivessem moral para impor. vivemos em um país democrático ( ás vezes penso...), mas será que algumas religiões agem de tal forma quando impõem suas posições diante de algumas atitudes da sociedade? sou a favor da pesquisa com células tronco e espero que prossiga...
grande abraço e sucesso sempre!
priscilla.
(priscilla.calaca@hotmail.com)
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