terça-feira, 1 de abril de 2008

A Irracionalidade da Esmola

É muito comum nas grandes cidades vermos pessoas pedindo dinheiro ou alimento pelas ruas, e isso desde tempos muito remotos da civilização. Tão comum quanto isso é vermos pessoas dando o que lhes é pedido, e campanhas contra esse tipo de ato, argumentando acerca dos males que este tem. Fica na mente do cidadão, então, a dúvida: dar ou não esmolas?

Trata-se de uma dúvida consciente: muitos, se não todos, sabem que dar esmolas é prejudicial por razões nem sempre claras, mas, por sentimentos de piedade e solidariedade, acabam cedendo aos pedidos.

Esses sentimentos de que falei são todos virtuosos, obviamente - ser solidário é certamente uma exemplar atitude. Porém, quando tratamos de sociedade, da coletividade, é importante que esses valores que as civilizações modernas costumam carregar atualmente sejam canalizados de forma a ampliar o bem estar comum, através de ações que podem, à primeira vista, parecer sem sentido.

A questão das esmolas é um exemplo típico disso, quando se afirma que dar esmolas é um incentivo à permanência dos pedintes nas ruas. Algumas pessoas tendem a levar essa afirmação pelo lado afetivo, sentimental, o que é, como disse, virtuoso, mas que não ajuda a solucionar os problemas sociais que temos. Dar esmolas de qualquer espécie, como tentarei mostrar, é uma ação muito menos pragmática na solução dos problemas econômicos daqueles que pedem do que outras ações de mais longo prazo - ao contrário do que muitos pensam.

Para elucidar essa idéia, darei um exemplo: Por que, afinal, um estudante universitário de uma grande universidade brasileira não estuda 15h/dia a fim de ir à, digamos, Harvard, para ganhar, no futuro, R$ 30 000,00/mês? A resposta é simples: Porque não vale a pena. Estudando 6h/dia e permanencedo no Brasil, esse estudante, no futuro, já vai ganhar uns R$ 10 000,00/mês.

Obviamente que todos preferem ganhar mais a menos, mas o esforço para se ganhar mais às vezes não compensa esse ganho, o que é um raciocínio natural que fazemos todos os dias, instintivamente, em diversos aspectos da nossa vida. Ou seja, por mais que esse estudante prefira ganhar R$ 30 000,00/mês, ele não está muitas vezes disposto a estudar as 15h/dia que esse ganho exige, se, com muito menos esforço (6h/dia de estudo), ele já ganhará R$ 10 000,00/mês. Isso nada mais é do que um raciocínio microeconômico.

A questão da esmola tem um argumento semelhante: O que faz um indivíduo ficar nas ruas sujas, sujeito à violência e a enfermidades, à própria humilhação, pedindo dinheiro, afinal? Simples como antes: o fato das outras alternativas não valerem a pena. Da mesma forma que o estudante gostaria de ganhar mais no futuro, o pedinte também gostaria de ter um salário, poder comprar suas coisas com os próprios ordenados e viver uma vida mais digna; mas, de novo da mesma forma que o estudante desiste de ir a Harvard, o pedinte prefere não trocar de realidade, pois o ganho que terá noutras alternativas não compensará o esforço que terá que realizar nelas.

Mas imagina agora se o salário do estudante que ficasse no Brasil não fosse mais de R$ 10 000,00/mês, mas de R$ 2 000,00/mês. Parece evidente que, com a diferença salarial maior, muitos estudantes estariam dispostos a estudar as 15h/dia necessárias para ir a Harvard, pensando nos ganhos que teriam com isso, ou seja, na diferença tão grande entre os salários que teriam. Semelhantemente, se os pedintes nas ruas não ganhassem nada de esmolas, ou ganhassem uma quantia muito pequena a fim de tornar a diferença entre ela e o ganho das outras alternativas atraente, haveria um incentivo muito maior para que essas pessoas deixassem as ruas e buscassem outras formas de vida. É por isso, logo, que dar esmolas, ao reduzir a diferença de ganhos entre essa possibilidade e as demais, estimula, sim, as pessoas a permancerem nas ruas, pedindo.

Isso vale para outras questões: Certa vez, ouvi falar de flanelinhas, desses que vigiam carros, que ganham até R$ 1 500,00/mês. Ora, haja vista ser esse um salário considerável, a que poucas pessoas têm acesso, a chance dos flanelinhas sumirem das ruas é muito baixa. E isso é reforçado toda vez que lhes pagamos para que vigiem nossos carros, lhes estimulando a ficarem alí. Há casos realmente graves, como o tráfico de drogas, que atrai milhares de jovens das nossas periferias porque seus ganhos, mesmo que ponderados pelos riscos dessa atividade, são muito maiores que os que as alternativas oferecem. E de tabela, cabe incluir aqui os programas ao estilo Bolsa Família, que, apesar de suas virtudes - principalmente em identificar os pobres brasileiros e pô-los na agenda política - acabam incentivando as pessoas atendidas a permanecerem inertes em sua situação econômica.

Alguns dos leitores desse texto podem estar sendo induzidos a pensar que o problema, então, é a falta de oportunidades rentáveis, e não a esmola. Esse pensamento é correto, pois se os ganhos do trabalho assalariado, por exemplo, fosse maiores, as pessoas talvez tendessem mais a se tornar assalariadas, mesmo com as esmolas permanecendo à disposição. Cabe ressaltar, porém, que a variável da questão, mais que o teto ou piso dos rendimentos que um indivíduo pode ter, é a diferença entre eles. Ou seja, é diferença entre os ganhos das alternativas, e entre os esforços que temos que fazer para termos acesso a elas, que nos conduz nas diversas escolhas que fazemos no nosso dia-a-dia. Assim, da mesma forma que estimulamos o leiteiro a permanecer fabricando leite toda vez que o compramos no supermercado, estimulamos o pedinte a permanecer nas ruas toda vez que lhe damos esmolas, o flanelinha toda vez em que lhe pagamos para que vigie nossos carros, etc.

Como costumo fazer, ressalto que nesse blog trato de coisas basicamente econômicas, o que não significa que eu não reconheça outros aspectos sociais que fazem com que, por exemplo, as pessoas permaneçam nas ruas pedindo esmolas. Mas a idéia é exatamente mostrar como a Economia nos pode ajudar a buscar rumos na solução de uma série de problemas que temos, e, nesse caso, ao elucidar porque, se nos solidarizamos ao vermos pessoas pedindo nas ruas, e lhes queremos ajudar, nos cabe não ceder aos nossos instintos humanitários e, definitivamente, não dar esmolas - para o bem dessas próprias pessoas, e o de nossa sociedade.

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