Não é de há pouco que se conhecem rumores acerca de idéias de separação do RS do restante do Brasil, na constituição deste numa nova nação. Esse tipo de pensamento é comum e corriqueiro lá no meu estado, e, pelo que descobri surpresamente, também aqui, em Juiz de Fora, e, por analogia que faço irresponsavelmente, pelo que parece, no restante do país. Também é sabido de todos nós que essa discussão sempre foi encarada mais como forma de chiste que com seriedade, não se tornando nenhuma força política de expressão atualmente.
Isso é assim, porém, somente nas últimas décadas. O RS, durante toda sua formação histórica, teve em seus interesses econômicos e sociais aspectos muito diferentes dos existentes no restante do país. A maior expressão disso ocorreu em relação ao charque, de cuja proteção do mercado implicou diretamente em conflito com as demais oligarquias nacionais, e que teria como cume o estouro da Revolução Farroupilha, que pôs em guerra as elites gaúchas e as nacionais durante 10 anos (1835-1845), na maior guerra civil da história do Brasil. Todo esse processo, embora longínquo, deixou, como todo processo histórico deixa invariavelmente, marcas na formação social dos gaúchos, expressas principalmente pelo caráter folclórico que tal fato tem no calendário do RS.
Agora, tendo a oportunidade de morar noutra cidade, fora do RS, pela primeira vez, tive a surpresa de ver que tais marcas que nos separam, não causadas de forma direta por questões históricas de que tratei, mas talvez por outras sobre as quais não sei argumentar, também são presentes aqui. Sinto que diferenças culturais são manifestadas além de hábitos simples, mas também em concepções de país e de sociedade - o que me faz crer que (de maneira imprecisa, é verdade), se um plebiscito fosse feito em todo o Brasil acerca da separação do RS, talvez os votos pelo “sim” fossem mais numerosos aqui que no meu estado.
Nunca fui e não sou separatista, e nem quero incentivar movimentos nesse sentido. A diferença é que, hoje, esse debate teria mais lógica para mim. E, dentre as opções das pesquisas de opinião, seria um “indeciso”, pois penso mais nessa questão do que noutros tempos.
Não sei se nossa sociedade, ainda jovem na democracia, está preparada para questões como tal. No entanto, questionar mais esses aspectos, com ponderação e sem bairrismos (da nossa ou de quaisquer outras partes), pode ser importante para que nós, gaúchos, nos localizemos dentro do contexto nacional. Porque mais que interesses econômicos, políticos e sociais em comum, a formação de um país ocorre via afinidade ideológica e moral, cuja existência no Brasil não tem me parecido clara ultimamente.