Um dos assuntos mais comentados na mídia econômica nos últimos tempos se refere à crise nos EUA.
Antes de tudo, é importante salientar que essa atual crise na economia norte-americana é um mal anunciado há muito tempo: ela viria mais cedo ou mais tarde, só não se sabia quando. Isso porque a economia dos EUA estava superaquecida, ou seja, crescendo num rítmo acima do desejável.
Pode parecer estranho a nós, brasileiros, ouvir falar em "economia que cresce demais", considerando que, aqui, o que mais queremos é crescer. Mas, sim, isso é possível: a economia norte-americana vinha crescendo muito em virtude de dois fatores: enormes déficits nas contas do governo e excesso de crédito no mercado, tudo isso financiado pelas economias asiáticas, que têm emprestado dinhero aos EUA e, até o momento, garantido suas gastanças acimas de seus recursos.
Esses enormes gastos que vem fazendo os EUA, enchendo o mercado de dólares, é o que, em parte, tem sustentado o bom momento da economia mundial nos últimos anos. No Brasil, sentimos isso através do crescimento sem prescedentes das nossas exportações, do ajuste das nossas contas externas e da queda da taxa de câmbio. Assim, parte da nossa melhora na área econômica se deve aos gastos realizados pelos norte-americanos, que deu fôlego e liquidez a toda economia mundial.
Mas esse crescimento dos EUA tem problemas, devido à forma como vem ocorrendo. Ele não é sustentável, como dizem os economistas. Inicialmente, porque o consumo excessivo dos EUA, como disse, vem sendo financiado pelos países da Ásia, que, conforme o dólar for perdendo valor, tendem a não querer mais comprar os títulos norte-americanos, fazendo cair a emissão de crédito, até que a economia volte a crescer a padrões, grosso modo, de steady state. Por isso que, mais cedo ou mais tarde, a crise viria a fim de ajustar esse desequilíbrio.
Esta chegou via o mercado imobiliário, da seguinte maneira: O excesso de crédito nos EUA fez com que muitas pessoas comprassem imóveis com boas condições de financiamento - condições estas, distorcidas, devido ao excesso de liquidez que impediu a ação reguladora do mercado. Assim, mesmo pessoas que não podiam pagar pelos empréstimos tomados, os acabaram tomando, criando a chamada bolha. Com o tempo, essas pessoas se viram, portanto, sem condições de pagar pelos emprétismos que fizeram, e os bancos, por sua vez, sem seus recursos emprestados. Isso foi agravado pela queda nos preços dos imóveis, o que fez com que, mesmo que as casas fossem tomadas pelos bancos como forma de pagamento, os recursos emprestados não fossem totalmente recuperados. Logo, os bancos ficaram sem dinheiro, estourando a crise.
As conseqüências disso já vêm sendo sentidas de alguma forma: Com a oferta menor de crédito no mercado, mesmo com a ajuda do Federal Reserve para que os bancos não quebrem, a economia dos EUA reduzirá seu rítmo de crescimento, fazendo com que os norte-americanos importem menos, disponibilizando menos dólares ao mundo. A economia do mundo todo, então, passará a crescer menos, o dólar, no longo prazo, terá uma tendência de valorização e o ajuste das contas externas via mercado de crédito, como fazem alguns países, como o próprio EUA atualmente, ficará mais difícil. Esse ajuste, no entanto, é necessário, pelas razões que expliquei antes. A economia não está fazendo nada mais que voltar ao equilíbrio. A forma como isso ocorrerá - brusca ou gradual - no entanto, ainda é duvidosa, e dependerá da habilidade dos atuais gestores da política econômica.
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