Na discussão acerca da bolha imobiliária nos EUA, e da conseqüente crise que tem trazido ao mundo, resta as questões pertinentes ao Brasil - seus impactos sobre nossa economia e, logo, sobre o nosso desenvolvimento.
O governo brasileiro tem insistido na idéia de que, atualmente, estamos mais preparados que nunca para enfrentar uma crise financeira internacional. Isso parece verdade: hoje, no site do Banco Central, constava a marca de US$ 196.196 milhões em reservas internacionais (a maior de toda a história), nossa balança comercial segue superavitária, a taxa de câmbio num patamar estável, a dívida pública e inflação sob controle, o risco-país num nível baixo e nossa riqueza, sim, em crescimento. Indicadores, portanto, que sinalizam a estabilidade da nossa economia, virtude fundamental no enfrentamento de turbulências como a que se arma.
A crise advinda, porém, há de afetar algumas características que vinha tendo a economia internacional e que contribuiam para o bom cenário econômico brasileiro (e, de forma geral, o de todos os países emergentes). Primeiramente, a crise de crédito no mercado norte-americano fará com que os EUA freiem o acelerado crescimento pelo qual vinham passando, segurando também o resto do mundo. Como somos parte do mundo,isso significa freio no nosso crescimento idem, numa relação quantitativa (ou elasticidade, em termos economiscistas) ainda não definida. Ou seja, não sabemos exatamente em quanto a redução do crescimento lá reduzirá o crescimento aqui, mas que afetará, isso sabemos.
A desaceleração dos EUA também atingirá o crescimento da China - "a menina dos olhos dos economistas leigos" - pois, afinal, lembremos, a China faz igualmente parte do mundo. Os EUA são o país que mais importa dos chineses e, crescendo menos, comprará menos, e a China, por conseqüência, produzirá menos, crescendo menos. E a China é o país que mais importa produtos primários atualmente, de exportadores como o Brasil, a que esse tipo de produtos tem grande importância. Segue o raciocício: Com a China vendendo menos aos EUA, crescerá menos e, logo, importará menos de países como o Brasil, fazendo com que o Brasil também cresça menos. E o ciclo segue...
No Brasil, portanto, um dos impactos mais pertinentes pode ocorrer sobre a balança comercial, considerando que nossas exportações, como se viu, devem cair. Assim, teremos menos margem de manobra para lidar com o fluxo de capitais - que também deve cair, em virtude da crise de crédito em sí e de eventuais aumentos nas taxas de juros de países desenvolvidos. Com isso, menos dólares devem entrar no Brasil, nos fazendo comprar menos do exterior, o que significa crescer menos. Sem equilíbrio, nossas reservas internacionais irão embora ou a taxa de câmbio será afetada, o que costuma ter forte impacto sobre a nossa inflação.
Fica, então, a dúvida: A crise afetará a forma como temos conduzido nossa economia?
Não, a crise não mudurá nada - ou, pelo menos, não deve mudar. Muitos dos gargalos do nosso desenvolvimento em nada dependem do cenário internacional, e a nossa agenda econômica deverá seguir a mesma. De fato, como tentei mostrar, a crise nos afetará, mas não de forma incisiva ou definitiva como ocorria em momentos semelhantes do passado, devido às razões que citei. Nossos desafios seguem sendo as reformas pró-mercado, o controle dos gastos públicos, o aperfeiçoamento institucional, a distribuição de renda e o combate à pobreza. Ou seja, tudo o mesmo de antes da crise.
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