Hoje em dia, tem se tornado praxe, quase um senso comum, a discussão em torno do meio ambiente, de sua destruição e de formas de sua preservação. Embora o tema já fosse bastante discutido antes, isso ascendeu deveras no ano passado, após a divulgação de uma série de relatórios tratando do chamado aquecimento global, efeito estufa e de todos os incidentes causados por tragédias ambientais pelos quais temos passado nos últimos tempos. A maioria disso de forma honesta e legítima, e, exageros à parte, o debate em torno do meio ambiente está aí, como deve estar.
No entanto, se deixarmos um pouco o romantismo de lado nessa discussão, veremos por trás dele uma série de relações envolvendo o meio ambiente bastante complexas. O início dela consiste no reconhecimento de que, para o Homem, destruir o meio ambiente foi, e talvez ainda o seja, conveniente para o seu bem-estar. Não quero ser mal entendido nessa minha afirmação, então me explicarei melhor: Muitas das comodidades que temos atualmente no nosso cotidiano, dos eletrodomésticos que possuímos, da energia que comsumimos, dos alimentos que comemos, das formas como nos divertimos, da vida que levamos, enfim, se deve, em alguma escala, à destruição ambiental. Resta, logo, a dúvida: Até que ponto estamos dispostos a abrir mão dessas comodidades em prol da preservação do meio ambiente?
Pode parecer estranho, mas nós (eu, tu, nosssos amigos, nossas famílias) estamos muito menos dispostos a isso do que pode parecer à primeira vista. Isso por uma razão simples: preservar o meio ambiente custa caro, o que significa produtos mais caros nos supermercados. Os chamados produtos ecologicamente corretos, desde automóveis até geléias e frutas, ou os produzidos de forma menos intensiva, como os de pequenas propriedades agrícolas, por questões de custos de insumos e produtividade, tendem a ser mais caros que os demais, o que significa que temos menos acesso a eles, que podemos consumir menos deles. Quando vamos aos supermercados, tendemos, mesmo que institivamente, a comprar os mais baratos, raramente tendo suas origens e formas de produção mais peso na nossa decisão que seus preços. Em última instância, isso significa que não estamos dispostos a abrir mão do bem-estar que o consumo desses bens nos traz em nome da preservação do meio ambiente.
Para aqueles que têm uma vida razoável economicamente, como eu e muitos que lêem esse blog, isso pode parecer uma questão de pouca relevância, de baixa consciência dos consumidores que, se soubessem da forma pela qual são produzidas algumas das coisas que consomem, talvez estivessem dispostos a pagar mais caro por elas. Mas isso não é tão simples: Os produtos fabricados com menor custo, em escalas maiores e que, geralmente, são mais nocivos ao meio ambiente, possibilitam o acesso a eles por uma grande parte da população pobre. Ou seja, enquanto, para mim, a proteção do meio ambiente significa somente pagar mais caro pela carne que consumo todos os dias, oriunda de gado alimentado com pasto e criado de forma extensiva, para o pobre, isso pode significar a eliminação da carne de sua dieta, o que certamente é uma perda enorme de seu bem-estar. Isso se prossegue até questões maiores: a geração de energia, por exemplo, ainda é mais barata via métodos agressivos ao meio-ambiente, mas que possibiltam a quase universalização do acesso à anergia elétrica, fundamental na vida moderna. Portanto, mais que nos perguntarmos até que ponto estamos dispostos a abrir mão das nossas comodidades em prol do meio ambiente, devemos nos perguntar também até que ponto vale a pena proteger o meio ambiente, considerando que isso condenará um grande grupo de pessoas à exclusão do consumo de uma série de produtos.
Preservar o meio ambiente vale a pena até o ponto em que os ganhos disso se igualem às perdas de bem-estar que causará. A partir daí, as perdas sociais serão maiores que os ganhos da preservação, a ponto que não será mais vantajoso preservar o meio ambiente condendando à pobreza e à exclusão do consumo uma série de pessoas. Ou seja, em nada adianta termos somente produtos ecologicamente corretos se somente uma pequena parcela da população terá acesso a eles.
Obviamente que outros pontos devem ser incluídos nesse debate. Seguramente existem tecnologias que conciliam preservação ambiental e custos baixos, com o que o raciocínio que expus perderia sentido. Na maioria dos casos, todavia, pelo menos por enqüanto, ele ainda parece válido. O importante é não deixarmos que o sensasionalismo tome conta dessa discussão, onde a preservação ambiental passe a ser uma bandeira sem causa, sem consideração ao desenvolvimento humano, que deve ser fim de toda discussão social.
3 comentários:
Diego, obrigado pela visita e por suas palavras. Estamos todos juntos nessa blogsfera procurando passar um pouco de informações aos nossos leitores. E sabes muito bem o qto é difícil dividir e expor opiniões num país em que infelizmente a maioria não lê jornais e sim limpam a bunda com eles. E tem uma outra parte que se venderam para fazer parte de um esquema criminoso que assola o país.
Mas tenho fé que estamos procurando deixar um país para a futura geração melhor do que o que recebemos. E uma das ações é poder dividir um pouco do que sabemos para com os que realmente nos procuram para aprender algo.
Abraços e precisando de qualquer coisa, é só me dar um toque.
Sucesso.
Olá, mano!!
Não pude deixar de comentar sobre o teu post! Concordo plenamente com este discurso se ele for aplicado na lógica capitalista. Mas se relativizares um pouco, ele se torna totalmente sem lógica! Afinal, quem disse q DESTRUIR o ambiente sempre foi favorável ao ser humano? MODIFICAR de fato foi algo sempre observado. Mas a destruição é um fenômeno visto somente a partir da Revolução industrial.
E creio que consumismo só seja sinônimo de qualidade de vida se saimos dos pressuposto que eles (produtos consumidos) sejam essenciais para a vida. Como a vida na Terra veio antes da energia elétrica, creio q eletrodomésticos não sejam algo essencial para a vida (embora algumas pessoas assim pensem). Creio q o governo está mais interessado em levar energia a lugares distantes não pq pense q isso seja essencial, mas apenas para integrar essa sociedade na lógica do "consumo, logo existo!".
E pra não ficar muito longo este pequeno comentário, só tenho a dizer que o q realmente imposta não é O QUE consumimos, mas COMO consumimos. Na lógica de conumo vigente, realmente não tem espaço para pensar na presenvação do ambiente.
Mana;
Disse que destruir o meio ambiente era conveniente ao ser humano até o momento em que isso significasse melhoria de seu bem-estar via outros processos proporcionados por essa lógica - e que ela poderá, e deverá, ser diferente no futuro, mas que, até agora, não o é. E embora já existisse vida na Terra antes da energia elétrica, como tu disseste, é inegável que ela, entre outras coisas, fez a expectativa de vida do Homem crescer vertiginosamente. Essa idéia do "como, e não quanto, consumimos", de que "eletrodomésticos não são tão essenciais à vida" etc pode funcionar dentro de uma cultura hippie, universitária, geralmente de classe média (como expliquei no início do quarto parágrafo), mas nunca como política pública para a resolução dos problemas sociais.
Bjoca, e obrigado pela visita.
Enviar um comentário